A CONSTRUÇÃO
Embora o Distrito Federal seja possuidor de uma comunidade judaica relativamente pequena (1), os judeus sempre estiveram vinculados, de alguma forma, à região, mesmo antes da construção de Brasília.
É possível que as bandeiras que saíam de São Paulo, no século XVI, para escravizar os índios no interior do país (inclusive a região de Goiás), tenham tido cristãos-novos entre os seus integrantes. Afinal, a terra descoberta por Pedro Álvares Cabral, em 1500, foi arrendada a uma espécie de consórcio formado por cristãos-novos, em 1502, sob a liderança de Fernando de Noronha, que também era conhecido como Fernão de Noronha ou Fernão de Loronha (2).
Logo após a Independência do Brasil, em 1822, começou a ser formada uma colônia judaica na Amazônia, com pessoas vindas do Marrocos. Em Belém, a primeira sinagoga foi fundada em 1828, mas como as relações com o Rio de Janeiro eram feitas pela costa, o povoamento da região de Goiás se desenvolveu de forma bastante lenta. Elias Lipiner (3) revela que havia exatos 69.957 judeus em todo o Brasil, em 1950. Mas, especificamente em relação ao Estado de Goiás, o censo de 1900 foi nulo quanto à presença de judeus. O censo de 1940 apontou apenas 25 judeus em Goiás e 58 no antigo Estado de Mato Grosso. Dez anos depois, a população judaica no Centro-Oeste continuava rarefeita: 126 pessoas em Goiás e 24 judeus em Mato Grosso (4).
Em 1953, através do Decreto 32.976, foi criada a Comissão de Localização, cujo objetivo era delimitar a área do então Estado de Goiás, onde seria construído o futuro Distrito Federal. Nessa comissão, havia um judeu, o doublé de engenheiro e historiador Salomão Serebrenick (5).
Posteriormente, já no governo Juscelino Kubitschek, tomada a decisão de transferir a capital federal do Rio de Janeiro para o Planalto Central, foi criada a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil, que passou a ser conhecida pela sigla: NOVACAP. O ato oficial de criação da NOVACAP foi assinado em 20 de setembro de 1956 e a primeira diretoria da companhia, presidida por Israel Pinheiro, era integrada por um deputado de São Paulo, Íris Weinberg, de origem judaica (6). Herbert Moses, o famoso jornalista carioca, que presidiu a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), entre 1931 e 1964, também integrou o primeiro Conselho Fiscal da NOVACAP.
Em meados de 1956, Brasília ainda era, rigorosamente, apenas uma iniciativa abstrata. Enquanto a idéia fixa do presidente Kubitschek, de transferir a Capital Federal, era ridicularizada no eixo Rio de Janeiro – São Paulo, Brasília era apenas uma vegetação típica do cerrado, onde existiam algumas fazendas pertencentes a goianos.
Entre 22 e 31 de outubro de 1956, foi construído o Catetinho, uma casa de madeira, que serviria como residência provisória do presidente da república. O Catetinho é a primeira residência construída no Distrito Federal, tendo sido inaugurado no dia 10 de novembro de 1956. A sua construção representou o marco histórico na edificação da nova capital (7).
Qualquer que seja o ângulo para se analisar a construção de Brasília, não se pode abdicar uma conclusão: é a maior epopéia da história mais recente do Brasil. Quando se constatou que Juscelino Kubitschek não estava blefando e que era realmente seu propósito construir a nova capital no cerrado goiano, começaram a chegar trabalhadores e curiosos de todas as partes do país.
O núcleo pioneiro de Brasília começou a surgir em dezembro de 1956, na margem direita do ribeirão Vicente Pires, a aproximadamente 12 quilômetros de distância do local onde seriam construídos os principais edifícios públicos da futura capital (8). Esse núcleo, constituído de um pequeno comércio para dar sustentação aos trabalhadores nas obras, logo explodiu como área de forte comércio. No final de dezembro de 1956, esse acampamento já abrigava cerca de 1000 pessoas, entre trabalhadores da NOVACAP, das construtoras por ela contratadas e pelos comerciantes que se fixaram na região (9).
No início, esse núcleo era totalmente formado por barracas de lona, que tinham sido montadas pelo Exército. Logo em seguida, começaram a ser construídas casas de madeira, cobertas de alumínio, zinco ou telhas. O caráter provisório desse núcleo não era sem motivo: então, estava definido que, tão logo a capital fosse inaugurada, em 1960, ele deveria desaparecer. Mas, por uma lei do Congresso, permaneceu e, hoje, constitui a cidade-satélite do Núcleo Bandeirante.
Esse amontoado urbano, mistura de acampamento e cidade de faroeste, chamou-se inicialmente “Cidade Livre”. Esse nome tem duas interpretações: não só era uma região onde o comércio se estabelecia livre da cobrança de impostos, como também era um núcleo que tinha a função de atuar como uma ponta de lança da nova capital, integrado pelos candangos, que se viam como uma espécie de bandeirantes do século XX, a desbravar o planalto goiano.
Nesse cenário de casas de madeira, ruas de terra, absoluto desconforto, chegou o primeiro imigrante judeu. Atraído pelas perspectivas do comércio, no curto prazo, e pelas possibilidades de expansão econômica da região, no longo prazo, Zacharias Savas Sakkis, nascido em 1921, na cidade de Atenas, na Grécia, chegou à Cidade Livre em março de 1957, para trabalhar no comércio (10).
Zacharias Sakkis havia perdido a mãe e um irmão no campo de concentração de Auschwitz e só não os acompanhou no fim trágico porque aderiu à resistência guerrilheira, quando a Alemanha Nazista invadiu a Grécia. Em 1949, Sakkis foi convocado para servir ao Exército Grego, como tenente, dando baixa dois anos depois. Ainda traumatizado pela guerra, estava indefinido sobre o que fazer da vida. “Eu tinha perdido tudo, menos uma certeza: não havia mais nada que pudesse me segurar na Grécia.” (11)
Nesse período, ele pensava em ir para a Venezuela, mas aceitou a sugestão de alguns amigos que já viviam no Brasil e, em setembro de 1954, chegou em São Paulo, onde permaneceu cerca de 10 dias. “Eu já sabia falar italiano e francês e não tive muitos problemas com o português, o qual já havia estudado um pouquinho na Grécia. Fui para Belo Horizonte, onde abri um comércio, mas me fixei por pouco tempo. No final de 1956, a revista “O Cruzeiro” publicou uma reportagem sobre a construção de Brasília e eu achei que seria uma boa idéia tentar a sorte na nova capital (12).
Zacharias Sakkis abriu a “Galerias Brasileiras”, localizada no número 695 da Avenida Central da Cidade Livre. Este foi o mais importante estabelecimento comercial da região, na época, tendo sido a primeira loja de Brasília a vender eletrodomésticos, em 1959. Judeu só por tradição e não religioso, Sakkis optou por uma discreta participação na futura comunidade judaica de Brasília, embora prestigiasse as festas tradicionais, como Rosh Hashaná e Sucot.
Um mês depois de Sakkis, chegou outro judeu imigrante à Cidade Livre, Herschel Zaks. Não se sabe exatamente onde Zaks nasceu. A sua certidão de óbito menciona apenas “Rússia” como o local de nascimento. As pessoas que conviveram com Herschel Zaks em Brasília também pouco sabem sobre a sua vida até chegar ao Brasil. Entretanto, com certeza, já vivia em São Paulo no ano de 1946.
Ele nasceu em 1909, filho de Chil e Maria Zaks, mortos durante a Segunda Guerra Mundial. Filho único, veio para o Brasil e se dirigiu inicialmente para o Rio Grande do Sul e, em seguida, para São Paulo, onde trabalhou no comércio. Em 30 de dezembro de 1946, foi admitido no Círculo Israelita de São Paulo, com o número 2397, dando, como endereço, a rua do Arouche n. 154, no centro da cidade.
Em São Paulo, Zaks casa-se com uma judia de nome Frida. Mas o casamento não dura muito tempo e, com a construção de Brasília, ele vai trabalhar na Cidade Livre, onde chega por volta de abril de 1957 (13).
Na Cidade Livre, Zaks abriu a Flórida Calçados, que, mais tarde, após a inauguração de Brasília, virou uma rede de quatro lojas com o mesmo nome, no Plano Piloto. Ele também não era religioso, embora, em 1958, tivesse participado de uma comemoração do Seder de Pessach, junto com mais quatro israelitas que passaram a viver na Cidade Livre.
Herschel Zaks se naturalizou brasileiro, adotou o nome de Henrique, casou-se com uma pernambucana de nome Elizeth e tiveram três filhos, que receberam nomes tradicionais hebreus: Moisés, Isaac e Miriam. Ele morreu em 1978, depois de uma trombose e um atropelamento. Seu maior amigo foi o advogado Antônio Carlos Osório, o primeiro a abrir um escritório na Cidade Livre. Em 1990, Osório homenageou Zaks com um conto, “O Presente” (14), no qual revela as dificuldades de sobrevivência do judeu russo Herschel Zaks, depois da falência comercial e da doença.
Repentinamente, de um rudimentar acampamento de barracas de lona, a Cidade Livre foi tomando ares de núcleo urbano mais organizado. Em 20 de julho de 1957, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) fez o primeiro censo na área, na qual encontrou 2.212 pessoas, sendo 1.338 homens e 874 mulheres (15).
Este primeiro levantamento estatístico de Brasília acusou a existência total de 6.283 pessoas vivendo na nova capital, incluindo a Cidade Livre e os diversos acampamentos as construtoras. Mas, só na Cidade Livre, o primeiro levantamento estatístico do IBGE encontrou 93 casas comerciais, sendo 15 estabelecimentos de venda de tecidos e armarinhos e quatro casas de comércio misto, além de 19 motores para fornecimento de energia elétrica.
Logo após o primeiro censo efetuado pelo IBGE, chegaram mais dois imigrantes judeus à Cidade Livre: eram os gregos Jacob e Gracia Vitran, de Salônica. Provavelmente em agosto de 1957, eles abriram o Bazar Universal, no número 665 da Avenida Central. Com uma placa contendo os dizeres “Sempre servindo melhor”, o casal Vitran incorporou-se à rotina de muito trabalho da Cidade Livre, que, nessa época, também já era conhecida como Cidade Bandeirante ou Núcleo Bandeirante. Este último acabou sendo seu nome definitivo.
Em setembro de 1957, a Cidade Livre (16) já contava com 13 hotéis, cinco bancos, quatro agências de companhias aéreas, vários restaurantes, açougues, lojas de armarinhos, padarias, quatro farmácias e igrejas de quatro cultos, num total de 340 estabelecimentos. É nesse ambiente que os Vitran começaram a vida no Distrito Federal, alugando uma loja de madeira bem pequena, pertencente a um japonês chamado Hideo Haguinhara.
Jacob Vitran também combateu na Segunda Guerra Mundial, mas na condição de militar do Exército regular grego. Ele foi convocado após a invasão da Grécia pela Itália, em 1940. Também conhecido como “Jacques”, Vitran foi uma figura ímpar na comunidade judaica de Brasília, da qual não foi apenas fundador e uma espécie de conselheiro, mas também um dos principais praticantes e conhecedores de religião.
O Bazar Universal vendia de tudo um pouco (17): calçados, roupas, malas, botas e armarinhos. “Todos os dias, Jacob Vitran escrevia ‘boa sorte’ no alto da página onde eram registradas as vendas daquele dia. Ele era um homem muito religioso, mas naquela época, não era possível observar o Shabat, que é o dia do descanso dos judeus. Nós trabalhávamos todos os dias, sem exceção, de 5h30m da manhã até às 10 ou 11 horas da noite. O sr. Jacob era não só uma espécie de líder dos judeus que viviam na Cidade Livre, mas dos gregos em geral, pois a colônia grega era muito grande naquela área”, lembra o advogado Jason Barbosa, que, durante 10 anos, trabalhou com
Vitran.
Em 1963, Jacob Aron Vitran ficou viúvo. Sua esposa, Gracia, morreu num desastre de automóvel, entre Brasília e Goiânia, junto com outros comerciantes gregos da Cidade Livre. Vitran voltou à Grécia e se casou com dona Rosa Vitran, que, durante a Segunda Guerra Mundial, também passou pelos horrores de Auschwitz. Em abril de 1991, Jacob Vitran morreu em Brasília, sofrendo uma crise cardíaca dentro de um ônibus urbano. Nunca deixava de visitar a sinagoga em São Paulo, quando lá fazia as compras para o seu comércio no Distrito Federal.
O ano de 1957 foi fundamental para a expansão do projeto de construção de Brasília. A NOVACAP tinha sido criada em setembro de 1956, mas só começou a decolar mesmo no final do primeiro trimestre de 1957. Nesse período, 34 engenheiros, arquitetos e desenhistas foram contratados, no Rio de Janeiro, para trabalhar no canteiro de obras de Brasília, onde não havia mão-de-obra qualificada, embora a Cidade Livre fosse um sucesso comercial.
Nesse grupo havia vários judeus, sendo alguns vindos do estrangeiro. Este era o caso de Samuel Rawet, que foi admitido pela NOVACAP no dia 05 de abril de 1957. Rawet nasceu em 1929, na aldeia de Klimotow, na Polônia (19), onde seus pais tinham um pequeno comércio.
A sua primeira língua foi o ídishe. “Comecei a estudar muito cedo, como era comum no interior da Polônia, na Europa Central. A escola funcionava ao lado da sinagoga. Aprendi a rezar, alguém me traduzia a frase toda... Tenho lembrança da vida na cidade, lembrança de inverno, de vida religiosa, lembrança de um mundo que não existe mais e que, depois me interessou, por ser um mundo, não sei localizar bem, talvez da Idade Média ou do século XVII ou XVIII”, afirmou Rawet, num depoimento prestado em 1972 (20).
Rawet chegou ao Brasil com sua família em 1936. Estudou engenharia e, aos 28 anos, estava contratado para trabalhar na construção de Brasília, onde integrou a famosa equipe de calculistas liderados pelo engenheiro Joaquim Cardozo, poeta de mão cheia nas horas vagas. Cardozo e sua equipe fizeram os cálculos dos principais prédios públicos de Brasília. Samuel Rawet também se dedicou à literatura, chegando a publicar diversos livros de contos, até a sua morte, em agosto de 1984, na cidade-satélite de Sobradinho, onde morreu sozinho, da mesma forma como havia vivido.
As pessoas que conviveram com Samuel Rawet, durante a construção de Brasília, lembram-se muito bem da sua personalidade introspectiva e da sua criatividade. “Ele era muito individualista. Morava sozinho. E escrevia muito bem. Era muito isolado; gostava de viver isolado. Não vivia com ninguém. Só. Então isso me parece que afetou um pouco ele, não sei. De repente, ficou inimigo de todo mundo”, lembra Jaime Dantas Campello, que, em agosto de 1958, foi transferido para trabalhar na NOVACAP, em Brasília (21).
Segundo Campello (22), Rawet era uma pessoa meio esquisita. “Às vezes, me cumprimentava na rua. Parava. A gente conversava muito. As vezes, passava, você cumprimentava e ele virava as costas. Fazia que não conhecia você. Acabou morrendo sozinho.” Campello, já naquela época (23), identificou contradições na condição judaica de Samuel Rawet. E lembra: “Ele era judeu, mas não seguia a religião. Ele não gostava de judeu.”.
Jayme Zettel, um arquiteto carioca nascido em 1931, neto de imigrantes judeus russos, prestou um depoimento ao Arquivo Público do Distrito Federal (24) lembrando que Samuel Rawet “era uma personalidade fantástica, né? Eu sei que, quando ele sentia que tava ficando maluco, ele se internava sozinho. Quando melhorava, ele saía. Era um calculista incrível.”
Em seu número 40, edição especial de 21 de abril de 1960, dedicada aos funcionários que trabalharam na construção da cidade, a revista Brasília, editada pela NOVACAP, menciona, além de Rawet e Zettel, outros especialistas do Departamento de Urbanismo e Arquitetura da NOVACAP de origem judaica, como Elias Kaufman, Mário Bruno Fainbaum e Salomão Tandeta.
Tandeta, nascido no Rio de Janeiro, em 1928, filho único de imigrantes judeus poloneses, também prestou um depoimento para o “Projeto Memória da Construção de Brasília”, executado pelo Arquivo Público do Distrito Federal. Ele fez referência (25) a alguns arquitetos estrangeiros que visitaram Brasília, por volta de 1957, citando “uma moça arquiteta de Israel” chamada Ilana. “E essa moça, inclusive, me lembra uma coisa até curiosa. É que, lá pelas tantas, ela se despediu de todos nós, voltou pra Israel, para cumprir o serviço militar”, lembrou Tandeta.
No início de 1958, apesar do lamaçal que envolvia toda a cidade (na época, Brasília era o maior canteiro de obras de todo o mundo), já se observava algumas características de núcleo urbano organizado. Em março de 1958, por exemplo, o advogado Antônio Carlos Osório, o melhor amigo do judeu russo Herschel Zaks, abriu o primeiro escritório de advocacia do Distrito Federal, no número 990-C da Avenida Central, na Cidade Livre (26).
No dia 15 de março de 1958, o imigrante belga Simon Pitel chegou à Cidade Livre, onde, junto com o irmão Benjamim, que veio algum tempo depois, instalou a Casa Central, uma loja de roupas e armarinhos, localizada no número 961 da Avenida Central. Ambos nasceram em Bruxelas, na Bélgica. Benjamim, em 1928, e Simone em 1936. Quando estourou a Segunda Guerra, os Pitel dividiram-se, por uma questão de segurança, ficando escondidos em casas de famílias católicas, na cidade de Alost. Com exceção do pai, Henri Pitel, que foi um dos primeiros judeus presos pelos alemães, em território belga.
Henri Pitel passou pelos campos de concentração de Brendonck, Auschwitz, Buchenwald, mas conseguiu fugir quando era transferido para Theresienstadt, na Tchecoslováquia. Em 1953, Benjamim Pitel veio passear como turista, no Rio de Janeiro, onde já vivia uma tia. “Eu me apaixonei pelo Brasil e decidi ficar aqui de uma vez”, lembra Benjamim Pitel (27), que virou gerente de uma loja dos tios, na rua Senhor dos Passos. Simon Pitel veio da Bélgica no início de 1958. “Trabalhei na Cidade Livre, como vendedor ambulante, durante uma semana e voltei para o Rio de Janeiro, para tentar convencer Benjamim a abrir um negócio em Brasília”, contou Simon Pitel (28).
Os irmãos Pitel têm na memória os nomes de diversos imigrantes judeus que viveram na Cidade Livre, no final dos anos 50. Eles citam Leo Davidovith, um alemão que também vendia roupas; Sami Sperberg, um romeno que transportava areia e cascalho, que mais tarde emigrou para Israel; Michel Fuchs, um ambulante polonês; Alain Max Berkowitz, um judeu francês de origem romena, que teve uma olaria, no final de 1957, e uma indústria de artefatos de cimento na Cidade Livre, em 1959; também havia um homem, conhecido apenas como Jacob dos Mapas.
O ano de 1958 tem uma grande importância história para os judeus de Brasília. Simon e Benjamim Pitel contam que nesse ano foi realizada a primeira manifestação de religião judaica na Cidade Livre. Foi reservada uma parte de um restaurante de comida italiana, chamado Adele (pertencente aos imigrantes italianos Giovanni e Adele Ricci). Ali, embora sem as condições ideais, foi comemorado o Seder de Pessach, sendo o material indispensável ao ritual oferecido por Jacob Vitran. Participaram os dois irmãos Pitel, o casal Vitran e Herschel Zaks (29).
As condições de vida na Cidade Livre eram muito duras. A família de Benjamim Pitel, por exemplo, não se adaptou e voltou para o Rio de Janeiro, só retornando a Brasília quando o acampamento de obras já começava a tomar as formas de uma cidade. “Viver em Brasília só tinha algum significado para as pessoas que estavam efetivamente dispostas a encarar as dificuldades. Não havia passatempos, só trabalho. A nossa única diversão era jogar cartas. A luz elétrica terminava por volta de 10 ou 11 horas da noite. Era preciso muita força de vontade para permanecer em Brasília, naquela situação, e esquecer os encantos do Rio de Janeiro.” (30)
Na realidade, a Cidade Livre era uma autêntica Babel, reunindo imigrantes de várias partes: alemães, portugueses, espanhóis, italianos, belgas, franceses, russos e gregos. “Os judeus eram muito poucos, mas não havia discriminação contra nós. Fomos muito bem recebidos e nos integramos bem naquela pequena comunidade internacional.” (31)
No início de 1959, vindo de Israel, chegou à Cidade Livre mais um imigrante judeu: George Reisman. Ele nascera em Budapest, na Hungria, em 1909, numa família que tinha tradição de trabalhar com o corte de carnes.
Em 1936, pressentindo os problemas decorrentes da ascensão do nazismo, Reisman foi para a então Palestina, vivendo em Jerusalém, Haifa e Tel Aviv, explorando o comércio na forma de açougue e uma pensão. Entre 1948 e 1957, Reisman trabalhou num navio de passageiros.
Nessa época (32), um irmão de George Reisman, chamado Zoltam, que vivia em Montreal, o convidou para trabalhar no Canadá, mas ele acabou optando pela vinda para o Brasil, onde chegou em meados de 1957, com a esposa (Yolanda, também nascida na Hungria), e os filhos Gabriela e Amnon Josef (nascidos em Israel).
Inicialmente, Reisman trabalhou num frigorífico em Santo Amaro-SP, mas no final de 1957, a família se transferiu para Uberlândia, onde havia uma pequena comunidade húngara. Ali, ele abriu um açougue, mas com a construção de Brasília, optou por tentar a vida na nova capital, abrindo o açougue Progresso, na Cidade Livre, no início de 1959.
George Reisman não era um homem religioso, mas participava das festas que começaram a ser organizadas na pequena comunidade judaica de Brasília, no início dos anos 60, como Rosh Hashaná e Yom Kippur. “Ele havia perdido os pais durante a Segunda Guerra Mundial, foi testemunha da violência que existiu antes e durante a Guerra de Independência de Israel, e tinha uma noção exata a respeito dos conceitos de liberdade e viver. Ele costumava dizer que a coisa mais importante do mundo era o simples ato de respirar. Na sua opinião, essa era a maior fortuna que as pessoas podiam desejar. Era um homem de muita vida.” (33)
George Reisman morreu nadando numa piscina. Aos 82 anos, teve um enfarto, quando praticava o seu esporte preferido. Um pouco antes de morrer, voltou a Israel. Seu filho, Amnon Josef, mantém a tradição familiar e, hoje, é proprietário de uma casa de carnes na Asa Sul de Brasília.
Nesse final dos anos 50, não se pode omitir o nome de José Tjurs na história dos judeus do Distrito Federal. Tjurs nasceu em Buenos Aires, em 1901, e foi sepultado em São Paulo, em 1978. Ainda menino, ele já trabalhava como ajudante de motorista, no Rio de Janeiro, servindo aos turistas na Praça Mauá.
Dotado de grande vocação para negócios na área de turismo e lazer, José Tjurs construiu a Rede Horsa, um dos maiores empreendimentos em hotelaria no Brasil, com estabelecimentos em Belém, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília (onde construiu o Hotel Nacional).
Empresário voltado para o futuro, Tjurs já havia construído, em 1952, o Conjunto Nacional de São Paulo, que foi o marco arquitetônico e histórico da nova avenida Paulista, uma área que, até então, era exclusivamente residencial. Em 1958, atendeu ao desafio do presidente Kubitschek e construiu o Hotel Nacional de Brasília, a maior edificação a cargo da iniciativa privada da nova capital. Até ser construída a sede da Associação Cultural Israelita de Brasília (ACIB), o Hotel Nacional sediou as reuniões da diretoria da entidade.
A INAUGURAÇÃO
Todas as pessoas que viveram a experiência da construção de Brasília tiveram uma emoção diferente no dia 21 de abril de 1960, com a inauguração da nova capital. Durante a construção, quando existia apenas o acampamento típico das construtoras e o núcleo comercial da Cidade Livre, os pioneiros conviviam com os grandes nomes responsáveis pela edificação de Brasília.
Antônio Carlos Osório, Benjamim e Simon Pitel, Zacharias Sakkis se lembram das inúmeras vezes em que encontraram o presidente Juscelino Kubitschek visitando a Cidade Livre, conversando com os peões das obras ou comerciantes. “Fiquei emocionado a primeira vez que o presidente da República visitou o Bazar Universal, para conversar com Jacob e Gracia Vitran. Eu era um menino tímido, vindo do interior, e aquilo para mim era uma grande novidade. Já rapaz, pude perceber que a convivência de JK com os pioneiros era uma rotina, pois o presidente da República era um homem de convivência muito fácil.” (34)
“Vivi, naquele 21 de abril de 1960, as maiores emoções de minha vida. O caminho, longamente trilhado a serviço do meu país, atingira uma eminência que me permitia ter uma visão de conjunto do que, até então, conseguira realizar. Parei para respirar, pois a jornada fora áspera e incruenta. Essa parada, entretanto, não queria dizer cessação de atividades. . . Afinal, aqueles últimos três anos eu vivera, sonhara, comera e dormira em função de uma data: 21 de abril de 1960”, lembra Juscelino Kubitschek em suas memórias de governo. (35)
Na época da inauguração da capital, como já estava previsto no projeto da cidade, o eixo principal da área de comércio já estava sendo transferido da Cidade Livre para a Asa Sul. O advogado Jason Barbosa conta que o bolo principal da festa de inauguração de Brasília, no dia 21 de abril de 1960, foi feito na Panificadora Royal, situada na av. W-3 Sul, de propriedade da imigrante judia de origem francesa Monique Eugenie Kassan, outra pioneira da construção da nova capital.
No ano da sua inauguração, o Distrito Federal já estava com uma população de 141.742 habitantes, distribuídos pelo Plano Piloto, cidades-satélites e núcleos rurais (que tinham recebido uma boa quantidade de japoneses, visando à criação de um cinturão verde em torno da nova capital). Brasília, sem dúvida, representava, na época da inauguração, uma grande fonte de enriquecimento para o empresariado: era o símbolo da euforia desenvolvimentista que caracterizou o governo Kubitschek. Ao contrário dos anos 80 e deste início de década, que se caracterizaram pela estagnação econômica, pelo empobrecimento generalizado e pelo pessimismo em torno dos destinos do país, o período de JK foi um tempo de conquistas. Além da nova capital, que ganhou 140 mil habitantes em apenas quatro anos, houve o surgimento da indústria automobilística, a construção de 13 mil quilômetros de rodovias federais, grande expansão da construção naval e da siderurgia, com a Usiminas (36). Brasília era uma espécie de símbolo desse período de otimismo e crescimento econômico.
Com a inauguração da cidade, o pequeno grupo de judeus que se estabeleceu com o comércio na Cidade Livre (que então virou a cidade-satélite do Núcleo Bandeirante) se transferiu para o Plano Piloto. Mas a cidade continuou a receber imigrantes judeus, como o casal Bazu Dan e Lulu Landwehr, ambos nascidos na Romênia.
Bazu Dan Landwehr nasceu em 1922, numa região de cultura alemã chamada Bucovina. Durante a guerra, foi recrutado para o Exército russo, mas acabou fugindo em direção a Bucareste. Em 1947, foi para Budapeste, na Hungria, onde conheceu sua futura esposa.
Lulu Landwehr nasceu em Oradia, na Transilvânia, uma região romena, mas de cultura húngara. Ela conta que, em 1940, a Transilvânia foi anexada à Hungria, que era aliada da Alemanha nazista. Então começaram a ser impostas diversas restrições aos judeus que viviam na região. “Em 1944, os alemães finalmente chegaram e o terror contra os judeus passou a ser abertamente praticado. Toda a minha família, meus pais e sete filhos, foi enviada para o campo de concentração de Auschwitz”, diz Lulu Landwehr, atualmente vivendo em Portugal. O fim da guerra tinha novos problemas.
A perspectiva de viver sob um regime comunista não estava nos planos de Dan e Lulu Landwehr, que pensaram em viajar para os Estados Unidos, onde tinham familiares. Mas os tempos confusos do pós-guerra provocaram uma inversão de planos. Eles foram para Paris, onde viveram durante dois anos e descobriram a possibilidade de construir a vida na América do Sul.
“Da França, fomos para a Argentina. Era um bom lugar, uma terra muito rica e de boas perspectivas de vida. Mas as simpatias de Perón com o nazismo não eram estimulantes e, então, decidimos vir para o Brasil em 1952. Nós nos instalamos na cidade de São Paulo, onde montamos uma fábrica de bonecos de Walt Disney, feitos com espuma de borracha natural.” (37)
A fábrica dos Landwehr, em São Paulo, foi, aos poucos, diversificando a sua produção. Passou a produzir colchões, almofada e material de estofamento. A borracha era comprada em Belém do Pará. Por volta de 1956, a empresa começou a fabricar móveis.
Lulu Landwehr conta que seu marido sobrevoou Brasília, em meados de 1957, quando a nova capital se resumia, ainda, ao núcleo pioneiro da Cidade Livre. Na época, o desconforto de Brasília não entusiasmava o casal Landwehr, que continuava a tocar a fábrica de móveis em São Paulo.
Na época da inauguração da cidade, o Hotel Imperial (um pequeno estabelecimento, localizado no Setor Hoteleiro Sul) encomendou seus móveis na fábrica dos Landwehr, em São Paulo. “Nesse tempo, já havia umas lojas na Av. W-3 Sul. Quando o Dan veio entregar os móveis pedidos pelo Hotel Imperial, conversamos bastante sobre uma possível transferência para Brasília. E alugamos uma loja na W-3 Sul, para vender os móveis que continuávamos fabricando em São Paulo.” (38)
Pode-se dizer que esse período imediatamente pós-inauguração de Brasília representa, de fato, o estabelecimento de uma comunidade judaica, no sentido mais exato da palavra. Não só aumentou o número de judeus, como as pessoas passaram a se reunir, festejando as datas religiosas e discutindo as questões específicas do judaísmo. Também nessa época a cidade passou a receber um outro tipo de judeu: o brasileiro, funcionário público, que vinha transferido do Rio de Janeiro para a nova capital.
Este era o caso, por exemplo, de Salomão Bensusan e Germano Galler, que tiveram uma participação muito ativa na formação da Associação Cultural Israelita de Brasília (ACIB), em 1964. Arquiteto com especialização na construção de hospitais, Galler veio a Brasília, pela primeira vez, em janeiro de 1959, como funcionário do Ministério da Saúde. E mudou-se definitivamente para a cidade no dia 18 de setembro de 1959, um pouco antes da inauguração de Brasília. Bensusan, que era funcionário do então Ministério da Fazenda, chegou um pouco depois, em 1961.
Germano Galler conta que, em 1960, havia uma associação informal, denominada Grupo de Amigos de Israel (GAI), que se reunia em sua casa, na antiga Quadra 16, casa 134, na Asa Sul (atual Q. 707, bl. H, casa 54). “Esse núcleo foi o embrião do grupo que, tempos depois, criou a ACIB”, diz Galler (39).
Lulu Landwehr também lembra que, junto com Edith Bensusan (esposa de Salomão Bensusan), começou a haver um questionamento a respeito de uma maior integração entre os judeus de Brasília. “Naquele período do início da cidade, o trabalho era muito pesado para todos nós. Tivemos então algumas conversas no sentido de como seria possível transmitir o nosso conhecimento de judaísmo aos nossos filhos. Havia algumas reuniões informais, com outras pessoas da pequena coletividade judaica, na sobreloja da Mainline Móveis, a loja que havíamos montado, em 1960, para vender os móveis produzidos na fábrica de São Paulo. Ficava na avenida W-3, q. 503 Sul, onde hoje funciona uma agência do Unibanco”, disse Lulu Landwehr (40).
Nesse período de 1960 e 1961, Brasília cresceu vertiginosamente, no embalo da euforia produzida pela inauguração. A posse de Jânio Quadros, de certa forma, representou um obstáculo para a nova capital. Oposição em relação a Juscelino Kubitschek e vindo de São Paulo, onde existia uma notória má vontade em relação à construção de Brasília, Jânio Quadros colocou um freio no desenvolvimento da cidade, abrindo uma série de inquéritos administrativos que visavam encontrar casos de corrupção na NOVACAP. Isso provocou a paralisação de todas as obras, temporariamente, mas não impediu que as pessoas continuassem a vir para Brasília, em busca de novas chances na vida.
Efraim Frajmund foi uma dessas pessoas chegadas em Brasília em 1960. Conhecido como Raymond, ele nasceu em Varsóvia, em 1927, mas com três anos de idade foi, em companhia dos pais, para a Bélgica. Seus pais eram socialistas convictos, não religiosos, e Frajmund não teve qualquer educação religiosa. Quando rapaz, não chegou a fazer o bar mitzvah, não só porque não havia uma necessidade de natureza religiosa, como também já havia estourado a Segunda Guerra Mundial e os alemães já haviam ocupado a Bélgica.
Em 1940, quando os alemães entram na Bélgica, Efraim Frajmund e a família fugiram de Bruxelas, a caminho de Paris. Nessa tentativa de fuga, houve a morte de sua irmã, em decorrência de uma investida da aviação alemã. A família voltou a Bruxelas e se escondeu no campo. Em 1943, Frajmund foi preso por uma patrulha alemã, que, ao constatar serem falsos os seus documentos, o encaminhou para o local onde estavam agrupados os judeus que iam ser transferidos para Auschwitz.
Ele foi embarcado no 21º comboio, no dia 21 de julho de 1943, que chegou a Auschwitz no dia 02 de agosto. Eram 1563 pessoas, inclusive 208 crianças. Ao final da guerra, só 40 pessoas sobreviveram entre os integrantes do 21º comboio: 20 homens, 19 mulheres e 1 criança: Efraim.
Ele conta: “Em 1945, voltei para a casa e tive a alegria de encontrar meus pais vivos. Estudei um pouco de Direito e Química, tentei a vida na Marinha Mercante, mas o fato verdadeiro é que eu estava com um profundo desgosto na Europa. Mesmo assim, em 1950, fui estudar Psicopedagogia na Suíça, onde fiquei um ano. No final de 1952, vim para o Brasil pela primeira vez. Um amigo editor me encomendou uns artigos sobre o Brasil. Eu ganhava 100 dólares por mês, o que era suficiente. E viajei por São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, escrevendo sobre o Brasil. Em 1953, fui para São Paulo, onde passei a fotografar.” (41)
Em 1958, Efraim Frajmund integrou, como cinegrafista, a expedição que o artista plástico Flávio de Carvalho organizou à Amazônia. “Eu estava vivendo em São Paulo, em 1960, quando o Cláudio Abramo (42) um dia me perguntou se eu não queria trabalhar em Brasília. Confesso que não tinha uma idéia a respeito disso, mas aceitei a proposta e cheguei em Brasília no dia 1º de junho de 1960, para trabalhar na redação do jornal “O Estado de São Paulo”; a sucursal era chefiada pelo Fernando Pedreira. Naquele tempo, não havia muitos jornalistas que falassem francês fluentemente em Brasília. Tive, então, a oportunidade de entrevistar Sartre, Simone de Beauvoir e Ionescu.” (43)
O nome “Raymond” surgiu em Auschwitz, entre os prisioneiros franceses. O Frajmund virou Frajmond, que acabou se transformando em Raymond. “Acabei adotando o nome”, diz Efraim Raymond Frajmund, que entrou para a história do jornalismo brasileiro com duas fotos antológicas. Uma delas, na inauguração de Brasília, com os diplomatas estrangeiros de fraque e cartola numa estrada de terra no meio do cerrado (iam para a inauguração da embaixada do Irã). A outra é o registro fotográfico do momento em que o senador Arnon de Mello (pai do ex-presidente Fernando Collor de Mello) matou, com um tiro, seu colega José Kairala, do Acre, dentro do plenário. Com essa foto, Raymond ganhou o Prêmio Esso de Fotografia, em 1964. Também foi vencedor do Prêmio Mergenthaler, dos Estados Unidos.
Raymond sempre teve uma relação distante com o Judaísmo. Mais recentemente, através da leitura de Isaac Bashevis Singer, começou o que ele classificou como uma espécie de “volta às origens”. Tendo sido educado num ambiente não apenas não religioso mas também não sionista, acabou visitando Israel, em companhia de seu grande amigo Sérgio Lacerda (recentemente falecido, filho de Carlos Lacerda). Aos 62 anos de idade, Raymond fez o bar mitzvah, numa cerimônia que ele lembra com muita emoção: “Fui para a sinagoga para atender ao convite de um grande amigo, que me convidou para o bar mitzvah de seu filho. Lá, descobri que o bar mitzvah era para mim. Foi uma emoção muito grande, difícil de explicar. De repente, pensei em todos os judeus que foram perseguidos, ao longo dos séculos, apenas por desejarem manter a sua fé. E aquele bar mitzvah representava toda aquela herança.” (44)
Em 1961, Brasília recebe pela primeira vez a visita de um rabino, Michel Leipziger, que hoje vive em São Paulo. Ele conta: “O meu primeiro contato com Brasília ocorreu no início da década de 60, quando, a pedido de um grupinho de judeus (três casais), liderados por Jedydia Worcman, fui a Brasília encaminhado pelo rabino Lemle, do Rio de Janeiro. A visita precedeu às Grandes Festas (Rosh Hashaná e Yom Kipur) e eu os orientei como celebrar a chegada do novo ano baseados nos seus conhecimentos. Havia entre os casais também um menino, recém-nascido, talvez o primeiro judeu nascido na nova capital.” (45)
Nascido na Polônia, em 1936, Jedydia Worcman chegou ao Brasil com apenas três anos de idade. Formou-se em engenharia em 1959. Sua ex-esposa, Suzane, lembra a epopéia que era a vida em Brasília no início dos anos 60: “Jedydia veio para Brasília em janeiro de 1960. Estávamos noivos e ele era um engenheiro recém-formado. Brasília oferecia várias vantagens para quem quisesse trabalhar lá, principalmente engenheiros. Ele conseguiu uma colocação na companhia de energia elétrica. Nos casamos e fomos morar no acampamento da Vila Planalto. Logo depois, foram outros casais judeus, Milton e Beatriz Ingber e Kitty e Ezequiel Roisman. Nosso primeiro filho, Vítor, nasceu em 29 de janeiro de 1961, no Hospital Distrital.” (46)
Suzane Worcman, que nasceu na Bahia e hoje vive no Rio de Janeiro, lembra-se das dificuldades de ter um filho em Brasília há 30 anos atrás. “Havia constante falta de energia elétrica na cidade. Eu havia decidido ter o filho no Rio de Janeiro, mas houve uma antecipação do parto e acabei indo para o Hospital Distrital de Brasília. Não havia energia elétrica no hospital e precisei ser carregada quatro andares, até a sala de parto, que foi feito com ajuda de um gerador. Então, já vivíamos numa casa localizada na av. W-3 Sul, q. 13. Meu sogro levou o Mohel do Rio de Janeiro para a cerimônia de circuncisão de Vítor. Ao final de 1961, decidimos voltar para o Rio de Janeiro.” (47)
A CONSOLIDAÇÃO
Ao contrário do Pessach de 1958, comemorado por cinco pessoas (Jacob e Gracia Vitran, Benjamim e Simon Pitel e Herschel Zaks), em 1963 e 1964 já foram realizadas comemorações no Hotel Imperial reunindo aproximadamente 40 pessoas. Nessa época, conforme lembra Benjamim Pitel e Lulu Landwehr, o Hotel Brasília Palace foi o local das festas de Rosh Hashaná e Yom Kipur, com o mesmo número de participantes.
O ano de 1964 representa um marco histórico na presença dos judeus no Distrito Federal. A coletividade, sem dúvida, ainda era bastante reduzida, se comparada com as do Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belém ou Recife. Mas já havia um sentimento de integração entre os pioneiros que se radicaram no Núcleo Bandeirante, a partir de 1957, e os que chegaram posteriormente à cidade.
Começou, então, a amadurecer a criação de uma entidade que congregasse os judeus de Brasília e cidades-satélites. A primeira reunião com esse objetivo foi realizada no Banco Lowndes, no dia 16 de março de 1964, à noite. Naquela época, a Capital Federal estava em plena efervescência política, que iria desembocar, duas semanas depois, no golpe militar que derrubou o regime constitucional do presidente João Goulart.
No dia 15 de março de 1964, na véspera da criação da ACIB, o país ainda estava de ressaca em conseqüência do comício realizado no dia 13, no Rio de Janeiro, quando Goulart se comprometeu com as chamadas “reformas de base” e acendeu, definitivamente, a ira das classes conservadoras. O comício do dia 13, na Cinelândia, selou o destino do Governo Goulart (48). Nesse dia 15, na reabertura do Congresso Nacional, o senador Auro de Moura Andrade deixava subentendido que o Poder Legislativo não iria acompanhar Goulart em sua aliança com as esquerdas. Foi nesse clima de confronto que surgiu a Associação Cultural Israelita de Brasília.
A ata de criação da ACIB registra os seguintes nomes: Germano Galler, Jacob Vitran, Leon Kurc, Carlos José Szuch, Paulo Hauser, Getúlio de Cerqueira, Samuel Auday Buzaglo, Fred Misionschnik, Isaac Cohen, Abraham Aguiar, Benjamim Goldenberg, Herschel Zaks, Salomão Bensusan, Robert Gersenson, Simon Pitel, Elias Cohen, Sentob Cohen e Paulo Grobman.
Germano Galler dirigiu os trabalhos durante a reunião. Ele fez um breve relato sobre as tentativas de criação de uma entidade israelita em Brasília, destacando a iniciativa das mulheres da coletividade, que já haviam fundado um núcleo da WIZO, entidade de caráter filantrópico, na nova capital. Também registrou um agradecimento a Isaac, Samuel, Elias, Sentob e Sadia Cohen, que, algum tempo antes, tinham oferecido um escritório dos Cohen (pioneiros de origem marroquina), localizado na Q. 114 Sul, para realização das reuniões preliminares visando à criação da ACIB.
Foi aprovado o estatudo da ACIB, ainda de caráter provisório, tendo sido eleita uma diretoria, para dirigir a nova entidade interinamente. Era a seguinte: presidente – Isaac Schafirovitch; vice-presidente – Fred Misionschnik; secretário – Samuel Buzaglo; tesoureiro – Salomão Bensusan; diretor cultural – Germano Galler; diretor social – Paulo Hauser; e vogal – Leon Kurc. Bensusan e Buzaglo ficaram encarregados de redigir uma minuta do estatuto definitivo da ACIB (49).
A posse de Schafirovitch como presidente da diretoria provisória da ACIB ocorreu no dia 10 de abril de 1964. Foi uma reunião rápida, pos aquele não era um tempo propício para reuniões. João Goulart tinha sido derrubado 10 dias antes e o país estava mergulhado num período de caça às bruxas, que não se afinava com os anseios de liberdade experimentados pelo povo judeu ao longo de sua história. Embora fosse um retrocesso político, o regime militar, contudo, significará a consolidação de Brasília como capital e, nesse contexto de expansão, a comunidade judaica vai se desenvolver junto com a cidade.
Se fundar a ACIB foi relativamente fácil, difícil foi mantê-la ao longo dos anos e, mais difícil ainda, construir a atual sede, situada entre as quadras 305 e 306 Norte. Numa reunião ocorrida no dia 16 de abril de 1964, os integrantes da ACIB já demonstravam preocupação quanto à necessidade de obter um terreno, do governo do Distrito Federal, para construir a sede social da ACIB e uma sinagoga (50). Em 30 de junho de 1964, Isaac Cohen tomou posse como presidente da coletividade judaica, já sem o caráter transitório que havia marcado a curta gestão de Schafirovitch.
Nesse primeiro ano de existência, a ACIB debateu-se com um problema de identidade: era uma associação cultural e recreativa ou uma organização religiosa? Mas uma reunião realizada no dia 21 de outubro de 1964 definiu a questão: a ACIB não tinha “caráter predominante religioso” e estava aberta a “qualquer pessoa de bem” que quisesse colaborar (51).
Nessa época, a comunidade judaica de Brasília enfrentava dois problemas principais: além de ser reduzida, seus integrantes eram obrigados a fazer constantes viagens, para cuidar de suas obrigações profissionais ou mesmo para tratamento de saúde. Isso prejudicava os trabalhos de organização da ACIB. Seu primeiro livro de atas, por exemplo, não registra nenhuma reunião no largo período compreendido entre 21 de novembro de 1964 e 18 de julho de 1966, quando suas reuniões começaram a ser realizadas no Hotel Nacional, pertencente ao pioneiro Tjurs.
Em 1966, a comunidade judaica de Brasília ganha mais dois membros nascidos no exterior: os médicos François e Eva Wertheimer, ele originário da França, ela da Tchecoslováquia. François Wertheimer nasceu em Paris, em 1936, numa família não praticante da religião judaica. Durante a guerra, ficou junto com a família, retido no campo de concentração de Douadic, que não era controlado pelas tropas alemãs, mas sim por policiais franceses do governo de Vichy.
A família Wertheimer conseguiu sobreviver à guerra. Em 1952, François veio para o Brasil, em companhia da mãe. Um tio já vivia em Porto Alegre desde os anos 20 (Hugo Rottman, considerado o primeiro especialista em cirurgia plástica no Brasil). Os avós haviam chegado um pouco antes da guerra e, por isso, a vinda de François para Curitiba em 1952 foi uma coisa natural. “Viemos nos reunir à família”, diz François Wertheimer, que se formou em Medicina em Curitiba em 1962, especializando-se em cirurgia vascular. Em 1966, ele e a esposa Eva, que na época era hematologista, receberam um convite para se tornarem professores na Universidade de Brasília, onde chegaram no ano seguinte (52).
Em agosto de 1966, a ACIB já havia recebido um lote da NOVACAP, para nele construir sua sede social, numa área de 2 mil metros quadrados. Na mesma época, Fred Misionschnik tornou-se o novo presidente da entidade. Mas os problemas internos da ACIB continuavam: a ACIB volta a se reunir só em 26 de setembro de 1967, para escolher um novo presidente, Henrique Henkin. Houve um novo hiato no gerenciamento da ACIB. Henkin foi transferido para o Rio Grande do Sul e a ACIB ficou novamente acéfala, voltando a se reunir somente em 27 de março de 1969, na residência de Dan Landwehr.
Era um local para onde convergia toda a coletividade de Brasília. A casa de Dan e Lulu Landwehr (antiga chácara 1, lote 37, atual Q. 05, chácara 98, no Lago Sul de Brasília) já vinha sendo, desde 1966, um local de encontro e confraternização dos judeus que viviam no Distrito Federal, refletindo um pouco da liderança natural exercida por Dan Landwehr na coletividade israelita.
No dia 05 de junho de 1969, Landwehr foi eleito, por aclamação, presidente da ACIB, tomando posse no dia 17 de junho. Itzhak Sarfaty, que nos anos 80 foi embaixador de Israel no Brasil, tendo servido como conselheiro, em Brasília, em meados dos anos 70, lembra-se de Dan Landwehr como “um líder não coroado da comunidade e que sempre apoiou qualquer iniciativa cultural e educacional.” (53)
A presidência da ACIB foi transferida para Germano Galler, em 04 de junho de 1970, cuja luta principal foi manter a posse pela ACIB do terreno doado pelo Governo do Distrito Federal, quatro anos antes. Como a coletividade não construíra no local, o Governo queria retomar o lote e essa questão foi bastante discutida numa reunião da ACIB realizada no dia 22 de abril de 1972, pois, até então, o problema continuava a existir.
Samuel Cohen, um dos judeus pioneiros de Brasília, assumiu a presidência da entidade em 27 de agosto de 1972. Finalmente, no dia 31 de março de 1977, passados 13 anos desde a sua fundação, era realizada a primeira reunião da diretoria da Associação Cultural Israelita de Brasília na sua própria sede.
Nos anos 70, despontou uma forte liderança religiosa entre os judeus de Brasília: Eugen Schiller, um húngaro naturalizado brasileiro. Ele nasceu em 1925, na cidade de Papa. Antes da Segunda Guerra Mundial, seu pai, Samuel Schiller, já vivia em Petrópolis, no Rio de Janeiro. No Brasil, Samuel casou-se novamente e teve um segundo filho, Robert, atualmente vivendo nos Estados Unidos.
Durante a guerra, Eugen Schiller também foi prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz (54), juntamente com a mãe e os avós, que não conseguiram sobreviver até a libertação do campo. Seu filho, Eduardo, acredita que Eugen Schiller chegou ao Brasil por volta de 1950. Ele se naturalizou em 1951 e seu diploma de naturalização foi assinado, no dia 10 de outubro, pelo presidente Getúlio Vargas e pelo então ministro da Justiça, Francisco Negrão de Lima.
Eugen Schiller serviu ao exército no Brasil, trabalhou numa fábrica de caldeiras, num frigorífico e na Ericsson, tudo no Rio de Janeiro. Entrou no serviço público pela porta do SAPS, formou-se em Administração de Empresas e, na década de 60, chegou a vir para Brasília, mas acabou retornando ao Rio, onde passou para o IPASE.
A vinda de Schiller, em definitivo para Brasília, ocorreu em 1971, quando assessorou a criação do SINPAS, no Ministério da Previdência Social. Schiller morreu em 1991, com 65 anos, vítima de um acidente vascular cerebral. Seu filho Eduardo ainda tem muito viva a memória de Eugen Schiller: “Era uma pessoa extremamente religiosa. Observava rigorosamente o Shabat, sendo sempre o primeiro a chegar para o serviço religioso na ACIB, da qual chegou a ser presidente. Uma de suas principais preocupações era a formação religiosa dos jovens da coletividade judaica de Brasília, tendo deixado vários manuscritos com essa finalidade”, lembra Eduardo Schiller. (55)
Eugen Schiller deixou escritos vários comentários sobre o judaísmo. Participava muito ativamente da comunidade, tendo sido representante, em Brasília, da Keren Kayemet Leisrael (Sociedade de Intercâmbio de Assuntos Agronômicos e Culturais Brasil-Israel). Seu passaporte registra duas entradas em Israel, em 1978 e 1980. Também era o representante da comunidade israelita no diálogo ecumênico com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
“Era um homem tolerante e voltado para o diálogo. Sequer tinha ódio dos alemães. Quando se referia às atrocidades praticadas contra os judeus, durante a Segunda Guerra Mundial, ressaltava que os nazistas não representavam todo o povo alemão e que o nazismo tinha resultado de uma falha coletiva”, conta Eduardo Schiller. (56)
Eugen se aposentou em outubro de 1990. Seus conhecimentos da prática religiosa judaica o deixaram, naturalmente, na condição de diretor dos serviços religiosos na comunidade de Brasília, na falta de um rabino. Sua morte ocorreu dentro do horário do Shabat. “Quando começou o Shabat, ele me disse que havia tido um sonho, no qual havia sentido a Tora. Morreu 24 horas depois, sem que a tomografia acusasse alguma coisa”, relata Eduardo Schiller. (57)
A década de 70, quando Schiller chegou definitivamente para morar em Brasília, também tem um outro significado especial na história da comunidade judaica do Distrito Federal, pois marca o período de transferência da embaixada de Israel do Rio de Janeiro para a Capital Federal.
A Embaixada de Israel foi transferida do Rio para Brasília em julho de 1971, sendo inicialmente instalada no edifício Gilberto Salomão, 2º andar, no Setor Comercial Sul. O primeiro embaixador a viver em Brasília foi Itzhak Harkavi. O lançamento da pedra fundamental da atual chancelaria, situada na Avenida das Nações (Setor de Embaixadas Sul) ocorreu no dia 08 de agosto de 1973. O então chanceler, Abba Eban, veio especialmente para a cerimônia. Mas a inauguração do prédio só se deu em maio de 1977, sendo Moshe Erell o primeiro embaixador a ocupa-lo. (58)
Muitos diplomatas israelenses passaram por Brasília, nesse período, deixando várias amizades entre a comunidade judaica da Capital. Mas, se é possível apontar um nome que simboliza as relações de fraternidade entre a comunidade israelita de Brasília e os representantes diplomáticos de Ha’aretz, esse nome é Itzhak Sarfaty. Junto com sua esposa, Sarfaty é sempre lembrado com muito carinho por muitos integrantes da coletividade judaica de Brasília, por todo o esforço que o casal fez no sentido de transmitir conhecimentos da tradição e da língua hebraica.
Os Sarfaty viveram dois períodos em Brasília. Nos anos 70, Itzhak serviu como conselheiro; nos anos 80, como embaixador. Ele nasceu em 1925, na cidade turca de Izmir, chegando a Israel em 1935, junto com os pais, quando então o país se chamava Palestina, sob o mandato britânico.
Nos anos 40 e 50, foi instrutor de jovens, no movimento dos escoteiros, o que facilitou bastante o seu relacionamento com jovens judeus de Brasília, principalmente na década de 70. “Chegamos em Brasília em 1975, quando ocupei a função de conselheiro da embaixada de Israel. Minha esposa e eu tentamos fazer algo com os jovens da comunidade. Prontifiquei-me a dar aulas de hebraico e, através das aulas, alguma coisa sobre a tradição e cultura judaicas. Tudo sempre girando em torno das festas e das datas comemorativas do calendário judaico.” (59)
Itzhak Sarfaty e a esposa permaneceram em Brasília, nessa primeira fase, até 1978, quando foram transferidos para Lisboa. Ele, entretanto, tem uma lembrança bastante nítida da sua experiência pedagógica em Brasília. “O número de crianças foi aumentando de aula em aula, até chegarmos à necessidade de formar duas turmas com mais de 20 alunos em cada uma delas. A comunidade judaica de Brasília, naquela época, era sociologicamente amorfa, sem tradições e sem raízes. Todos tinham as raízes no Rio, São Paulo, Belém e outras regiões do Brasil e muitos aproveitavam os feriados para viajar e visitar os familiares e os amigos, o que dificultava o trabalho com os jovens.” (60)
Hoje, aposentado, Sarfaty vive em Israel. O mesmo acontece com Mordechai Schneerson, que era o embaixador de Israel no Brasil naquela época. Seu julgamento sobre a comunidade judaica de Brasília é correto, embora talvez seja um atenuante o fato de o primeiro judeu ter começado a viver em Brasília há apenas 35 anos.
Brasília ainda significa, para algumas pessoas, um ponto intermediário no espaço, um sinal de vida provisória. No passado, obviamente, esse sentimento era muito mais comum do que hoje, quando o Distrito Federal é uma área consolidada, já dispõe de uma população de quase 1,6 milhão, e Brasília, especificamente, é uma cidade pronta.
Por volta de 1970, existiam menos de 150 mil judeus Brasil. Em Brasília, nessa época, a população judaica era extremamente rarefeita: apenas 80 famílias, o que representava cerca de 300 pessoas (61). Talvez tenha sido essa população rarefeita que não só dificultou a expansão da ACIB, mas também da própria Bnei Brith.
A Bnei Brith foi fundada em Brasília na noite do dia 08 de agosto de 1973, o mesmo dia em que Abba Eban lançou a pedra fundamental da embaixada de Israel. Seu presidente foi Dan Landwehr, mas a entidade não prosperou. Duas fontes que preferiram o anonimato confirmam a mesma informação: Brasília, na época, não tinha uma comunidade judaica em condições de manter uma Bnei Brith. A decisão de criar a entidade, em Brasília, surgiu de um consenso entre lideranças judaicas nacionais, no sentido de que deveria ser oficializada uma Bnei Brith no Distrito Federal para possibilitar a elevação do nível da Bnei Brith brasileira dentro do esquema internacional da organização.
Dan Landwehr morreu em 1981, de câncer. Em setembro de 1982, o rabino Michel Leipziger volta a conviver com a comunidade judaica de Brasília. Ele retornou à capital quando a coletividade ainda estava traumatizada com a morte de Helena e Jayme Barcessat, num desastre de avião. O casal Barcessat era muito respeitado pelo sentimento religioso que procurava imprimir na coletividade judaica. “Entrei em contato com o Sr. Jayme Barcessat na manhã do dia em que ele teve o trágico acidente que lhe custou a vida. Em seguida, procurei um contato com o Sr. Benjamim Pitel e fiz uma visita a Brasília. Então, celebrei uma cerimônia na sede da ACIB, em memória do Sr. Barcessat e esposa. Lembro-me que eram poucos dias antes de Rosh Hashaná e a comunidade estava em estado de choque. Uma semana depois, eu estava de volta, para as grandes festas. Após esses primeiros encontros, acabei prolongando minha estada, com uma série de outras festividades. Ia e voltava a São Paulo com certa freqüência, até que passei a morar na sede da ACIB e permaneci um ano e meio”, conta o rabino Michel Leipziger (62), que também dava aulas de hebraico. Sua estada em Brasília se encerrou em abril de 1984 e muitos membros da comunidade se lembram dele pela capacidade de diálogo e espírito progressista.
OS JUDEUS NA CIDADE LIVRE
(Um estudo sobre a presença de imigrantes judeus na construção e consolidação de Brasília)
Trabalho apresentado por MAURÍCIO DE CASTRO CORRÊA ao Instituto Cultural Judaico Marc Chagall de Porto Alegre, em maio de 1992, para concorrer ao prêmio 91/91.
Agradecimentos especiais a representação em Brasília do Arquivo Nacional Judaico.